Natália Correia

'Eis-me sem explicações, crucificada em amor: a boca o fruto e o sabor'

O ano é 1923 e o dia é 13 de Setembro, nascia Natália Correia na Fajã de Baixo, Açores. Nasce açoriana, mas é em Lisboa que faz vida, e por infortúnio da doença, cedo nos deixa, em março de 1993.

Com seis anos, o pai emigra para o Brasil. Natália e a irmã recebem aulas em casa pela mãe, que é professora primária (e também escritora com obra publicada). Talvez daqui advenha a força e a sempre presente figura materna que acompanha a obra de Natália. A Grande Mãe, a Natureza, a Mátria.

Uma mulher de fogo, uma mulher de peito aberto, cujas labaredas lhe saíam pela boca. Uma mulher sem medos num mundo de homens, uma mulher que hoje seria um símbolo do feminismo. Escritora, poeta, dramaturga, deputada.


Sentou-se nas bancadas do Parlamento pelo PPD, e depois, como independente, pelo PRD. Fez parte das vozes que levaram à despenalização do aborto, e em resposta ao deputado do CDS-PP, João Morgado, que dizia em 1982, que “o acto sexual é para ter filhos”, cria este poema, que o lê em sessão plenária:


Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Desta vez, Natália faz a Assembleia rir, mas em 1987 faz a Assembleia corar e indignar-se. Sem ninguém contar com a sua visita, a então deputada do partido radical italiano, Ilona Staller, mais conhecida por Cicciolina, entra nas galerias de São Bento como visitante e logo distrai os puritanos deputados da nação. Destes, Natália foi a única a levantar-se e a ir conversar com a deputada e atriz italiana que certamente invejou a estátua da República de Anjos Teixeira.

Sobre tão inesperada visita, Natália escreve:


Estava o Parlamento em tédio morno
Do Processo Penal a lei moendo
Quando carnal a deputada porno
Entra em S. Bento. Horror! Caso tremendo!

Leda à tribuna dos solenes sobe
A lasciva onorevole Cicciolina
E seus pares saudando ali descobre
O botão rosado da tettina.

Para que dos pais da Pátria o pudor vença,
Do castro bracarense o verbo chispa:
«Cesse a sessão em nome da decência
Antes que a Messalina mais se dispa.»

Mas - ó partidas que prega a estatuária! -
Que fazer no hemiciclo avesso ao nu
Daquela estátua que a nudez plenária
Ali ostenta sem pudor nenhum?

Eis que o demo-cristão então concebe
As vergonhas velar da escultura.
Honesta inspiração do céu recebe
E moção apresenta de censura:

«Poupado seja à nudez viciosa
O olhar parlamentar votado ao bem.
Da estátua tapem-se as partes vergonhosas.
Ponham-lhe cuequinhas e soutiens.»


Em Lisboa, na Graça, reabre em 2010 o Botequim, no mesmo sítio junto à Villa Sousa, embora com outra gerência, lá está.

O original, bar Botequim da Liberdade foi fundado pela Natália Correia, Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta em 1971. Espaço de tertúlias, debate político, cafés-concerto. Dizem que nas noites em que a Natália lá estava era quando mais enchia, pois eram muito apreciadas as leituras (de poesia) da própria.

De espírito crítico, e de grande lucidez face aos problemas da sociedade, em entrevista Natália dizia que as primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas” (‘O Botequim da Liberdade’).


Em 1984, é apresentada a letra actual do hino dos Açores da autoria de Natália. “Deram frutos a fé e a firmeza”, assim começa, e é cantado pela primeira vez pelos alunos do colégio de São Francisco Xavier. A música já existia desde 1894, debutada em Rabo de Peixe pela Filarmónica Progresso do Norte.

(Não errarei ao dizer que são poucos os açorianos que sabem a letra do seu hino, ou mesmo que reconhecem a sua música; mas isto é outra história.)


Tem escola com seu nome, avenida e rua. Mas falta mais. Falta trazer mais da literatura da Natália aos programas escolares e às escolas, nem que fossem apenas as escolas dos Açores. Falta dar a conhecer esta, e outras mulheres ao país.

E se neste texto falo de Natália Correia, outras mulheres há que recordar, e a RTP tem já gravada e ainda sem data anunciada uma série de 13 episódios sobre três mulheres marcantes da sociedade portuguesa, mas que nós portugueses pouco falamos delas. A série é sobre Natália Correia (interpretada por Soraia Chaves), Vera Lagoa (interpretada por Victória Guerra) e Snu Abecassis (interpretada por Maria João Bastos).


Por desejo expresso da própria, e após 20 anos colocadas temporariamente no Jazigo dos Escritores no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, as cinzas da escritora foram trasladadas para a sua terra natal. Natália abominava o “horroroso” Panteão de Santa Engrácia, não queria lá ficar, e assim, regressa a casa ficando no jardim interior da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, junto com as cinzas do seu marido, Dórdio Guimarães. Foi Dórdio, que em testamento público, deixa à guarda do Governo Regional dos Açores tudo o que herdou de Natália: a biblioteca com todas as suas obras, manuscritos, originais, recheio da casa de Natália, a pinacoteca e escultura de ambos.

Portuguesa, açoriana, de garra e de ganas, uma mulher que merece ser visitada e lida. Que se faça.