Estudo confirma: produtores do “leite de vacas felizes” abusam dos fertilizantes nos solos açorianos.

O sector dos lacticínios é dos principais contribuidores para as emissões de gases com efeito de estufa.

Recentemente a Terra Nostra, marca de lacticínios detida pela Bel Portugal, relançou a campanha de marketing do seu produto “Leite de Vacas Felizes”. Desta vez, dando a conhecer que “a pegada de carbono do leite das ‘vacas felizes’ que pastam em liberdade é 32% inferior às que vivem em estábulos”. Perguntei-lhes qual o estudo ou em que dados se baseavam e responderam uns dias depois: “Carbon Footprint of Milk from Pasture-Based Dairy Farms in Azores, Portugal”, um estudo realizado pela Terraprima, uma spin-off do IST, e apresentado em Outubro de 2018.

Antes de mais, convém referir que “Leite de Vacas Felizes” é apenas o nome dado ao programa, não confundir com a efectiva felicidade das vacas. Talvez para isso outro estudo seria necessário.

Quanto a este estudo, financiado pela própria Bel Portugal, recorre a um inquérito realizado em 2015 a 25 produtores que aderiram a este programa (ao todo são cerca de 50) e fazendo uma avaliação de ciclo de vida (LCA) vai retirar conclusões quanto ao impacte dos gases com efeito de estufa, através de vários indicadores, que a produção de leite de vacas criadas inteiramente em pastagens tem. Aliás, são orientações do programa “leite de vacas felizes” que estas passem entre 18 a 20 horas do dia em pasto e que haja um incremento de erva fresca na sua alimentação. Basicamente é esta a grande diferença de hábitos e cuidados que o produtor terá com o seu gado aderente. Quanto ao leite, desconhecem-se as vantagens “nutricionais” acrescidas relativamente ao do das restantes vacas (infelizes?), com a diferença a residir na quantidade de leite produzido por vaca por ano - 9000 litros contra os 7000 litros médios da restante Europa.

Ressalta, desde já, a questão, se será este um programa de “vacas felizes” ou para “fábricas felizes”!?

Retomando o estudo, este esclarece, desde logo, que o sector dos lacticínios é um dos principais contribuintes para as emissões de gases com efeito de estufa, sendo que as três principais fontes de impacte são a fermentação entérica, a alimentação à base de rações concentradas e a aplicação de fertilizantes (sejam orgânicos ou minerais) nos solos.

Este tipo de estudos, e regra geral, recorrem à revisão de literatura do trabalho já feito na área e comparando resultados chega ao pretendido: a incidência de gases com efeito de estufa associados à produção leiteira em regime de pastoreio.

“Mas a comparação foi feita com apenas um estudo.”

Afirmam os autores que, até ao momento, não há muitos estudos realizados, pelo que recorreram a várias simplificações e aproximações por forma a poder comparar diferentes dados, medidos de diferentes maneiras em diferentes estudos que visaram a produção leiteira de forma intensiva e, a priori, com conhecimento do seu elevado grau de impacte ambiental que os gases com efeito de estufa têm nessas produções intensivas. De tal forma que comparar uma produção à base de pastoreio com outra intensiva, em termos de marketing, era logo uma aposta ganha. E assim foi. Em Outubro passado a campanha foi para o ar, quase que tornando a produção de leite, do programa de “leite de vacas felizes”, amiga do ambiente.

Vamos então aos dados. Por cada litro de leite à saída da pastagem, é produzido o equivalente a 0,83 kg de dióxido de carbono. Este é que é o tal valor 32% inferior à produção intensiva de leite. Ou seja, se bebêssemos um copo de leite cru dum pacote de 1l, poderia dizer-se que este seria o único copo isento de dióxido de carbono na sua produção, todos os restantes continuam a ter uma pegada de carbono equivalente impregnada.

A Terra Nostra vem com esta nova campanha de marketing tentar mostrar que o leite produzido através do programa “leite de vacas felizes” é um leite amigo do ambiente, omitindo o valor real da pegada de carbono efectiva.

É preciso ter sempre cuidado quando se diz “…melhor que…”, “…inferior a…”, ou “…mais que…”, porque isso implica sempre uma comparação, regra geral, com algo pior quando aquilo que se quer mostrar são melhorias (comparativas, lá está!).

E como o que está em causa nesta campanha é efectivamente a pegada e dano ambiental, é o próprio estudo a detectar que os produtores do programa “leite de vacas felizes” alimentam em demasia o gado, e com isso fazendo aumentar a quantidade de metano libertado para a atmosfera, através dos processos naturais de fermentação entérica do animal.

O estudo detectou, também, um excesso de fertilização dos solos.

Não está apenas em causa a pegada de carbono associada ao excesso de uso de fertilizantes na actividade, mas sobretudo, e dadas as particularidades da orografia, da permeabilidade dos solos açorianos e dos grandes índices de pluviosidade da região, que este excesso de fertilização e acumulação de nitratos periguem as águas subterrâneas usadas para consumo humano e animal, como também das ribeiras e lagoas que são vida e imagem dos Açores.

É interessante, também, reparar que o estudo não teve em conta a pegada de carbono associada ao transporte de leite (e seus derivados, já agora) para a parte continental do país, uma vez que é lá que a maior parte da quantidade de leite produzida na região é consumida.

No que à produção em si diz respeito, o estudo também aponta para uma alta taxa de reposição de vacas, que deveria ser perto de metade da actual.

Quando a “actividade da vaca” é altamente subsidiada para subsistir, quando os novos quadros comunitários de apoio, nomeadamente o POSEI 2021-2027, apontam no extremo cuidado que deverá ser dado à parcela ambiental, quando as linhas orientadoras da nova Política Agrícola Comum seguem uma arquitectura mais verde, amiga do ambiente e do clima, fica a pergunta: que actividade é esta que teima em perigar a casa de todos nós, os Açores?


- O estudo está disponível aqui e é de consulta pública.

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